Armadilha

 

Tinha sete anos, ou um pouco mais. Insegura, indecisa, estava indo à escola. Usava um tênis conga, cor de rosa .
A avenida estava sendo asfaltada, o betume extremamente mole.
As colegas conseguiram dar a volta e escapar do betume que acabara de ser jogado. Ela não, ela só conseguiu não saber para onde ir e afundou os pés no macio creme negro, até as meias.
Ficou imóvel, não dava para se mexer.
Todos riram, as colegas, os transeuntes, os operários que manuseavam o piche.
Ficou lá um tempo em desespero, como um bicho caído em armadilha.
Vergonha, culpa, vontade de chorar ( embora não tenha conseguido ), foram alguns dos sentimentos mais toleráveis que lhe vieram enquanto estava colada ao piche.
Já estava imaginando que aquilo geralmente acontecia com ela, quer dizer, aquele tipo de vexame, humilhação, aquela condição de ser jogada no chão, onde todos podiam fazer o que quisessem com ela; chutar, cuspir em cima, jogar pedras e acima de tudo e mais tenebroso, rirem dela, rirem muito, sem parar. Muita diversão.
Permaneceu imóvel, procurando não encarar ninguém, tentando assimilar sua condição de bicho preso em armadilha.
Um dos operários finalmente conseguiu chegar até ela, tirar suas congas dos pés, colocá-la no colo e levá-la até a calçada.
Uma de suas colegas ainda rindo muito, lhe perguntou como ela iria chegar até á escola calçada só de meias.
A pergunta não teve resposta e só então vieram o choro contido e o desespero estampados em seu rosto.
Uma das meninas teve a idéia de deixá-la ficar em sua casa durante a tarde, emprestar um par de chinelos para que ela pudesse ir para casa.
Assim ela conseguiu adiar o inevitável, ou seja, mais humilhações provenientes do pai e da mãe. E no final a surra, que a deixaria com marcas pelo corpo todo.
Mas as piores marcas eram as que ficavam na alma, e ainda bem ninguém poderia ver.

Pseudônimo: Cida Morena

 


 
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